O Requeijão da Véstia

Ou melhor: O requeijão de Grão Mogol
Por Joaquim Alves Martins

1.964 – Eu estava trabalhando na construção das usinas hidrelétricas do conjunto Urubupungá, no rio Paraná, divisa entre São Paulo e Mato Grosso (não existia ainda o Mato Grosso do Sul).
Lá no início das obras.
Trabalhava na topografia, na barragem de Jupiá, próxima a Três Lagoas.
A CELUSA, empresa proprietária do complexo hidrelétrico, resolveu dar início à construção da outra usina, a de Ilha Solteira, 60 quilômetros rio acima, perto de Aparecida do Tabuado. E fui designado chefe de topografia de campo.
Foi a primeira equipe técnica que se deslocou para lá. Levei 53 pessoas comigo, entre topógrafos, niveladores, auxiliares de topografia e ajudantes para o serviço mais pesado, o de abrir picadas e construir os marcos de concreto, que serviriam depois para implantação das obras.
Como o pessoal de Três Lagoas sabe, a Véstia (hoje um bairro da cidade de Selvíria) fica bem perto da Usina da Ilha Solteira. Pouco menos de 9 quilômetros. Nosso acampamento, nesse início, todo de madeira, ficava na margem de Mato Grosso. Uns meses depois mudamos para a margem paulista. Não existia o núcleo urbano de Selvíria, que surgiu em função da usina e hoje é município. Apareceu muito tempo depois, não cheguei a conhecer. Não existia também a povoação de Ilha Solteira, na margem paulista. Para que a projetista da vila (e depois cidade), uma empresa de São Paulo, pudesse elaborar o projeto, minha equipe fez os levantamentos topográficos.
Era proibido o consumo de álcool no acampamento. Alguns homens, nos fins de semana, iam a pé até a Véstia, para tomar cachaça (ou não) e ver gente diferente da que via na obra.
Mas a maior parte do pessoal ia para Três Lagoas, a empresa dava transporte no sábado à tarde com volta na segunda de manhã. Alguns poucos ficavam na obra, geralmente para pescar ou porque estavam sem dinheiro para gastar na cidade.
Também não havia, nesse começo de obra, impedimento para pessoas estranhas entrarem no canteiro. Nada de cerca, nada de portarias. Só algum tempo mais tarde foram instalados esses elementos de segurança.
Eu ficava mais tempo no campo, acompanhando a implantação dos marcos, do que no escritório.
Lá um dia me aparecem no serviço três crianças da redondeza, oferecendo para venda, mel, melado e requeijão. Todos sabem que é proibida a entrada de estranhos em canteiro de obras, pelos riscos à segurança, ainda mais em se tratando de crianças. Meu primeiro impulso foi dizer a eles que não poderiam ficar lá, que era perigoso. Que não era permitida a permanência. Mas avaliei melhor e não disse. O serviço que estávamos fazendo naqueles dias não chegava a representar risco real para eles, além de que eu não teria meios para impedir a entrada. Sabia que dentro de algumas semanas seria construída a cerca, colocada a portaria, chegariam as máquinas de terraplenagem e então seria diferente.
Para mostrar simpatia às crianças, puxei conversa.
Perguntei os preços do que estavam vendendo. Tudo muito barato, preço para peão de obra. Perguntei onde moravam. Disseram que em um sítio, para os lados da Véstia.
Eu disse a eles: — Levar esse requeijão vai ser problema. Se não colocar na geladeira vai estragar logo.
E eles: — Não, moço, este requeijão não estraga fora da geladeira, não. É diferente dos outros que o senhor conhece.
Não acreditei muito, mas comprei mel e requeijão. Como disse, só para colaborar, mesmo, política de boa vizinhança. Os garotos ficaram felizes com a venda. O requeijão era grande, tinha uns 2 quilos. Era mais escuro, um pouco “bronzeado” em relação aos outros que eu conhecia.
À noite levei o requeijão para o jantar, no pequeno refeitório dos topógrafos. Sempre havia lá algum doce para a sobremesa. Experimentei, gostei e ofereci aos outros. O danado fez sucesso. Todos gostaram. E comentaram que não conheciam aquele tipo. Levei o que restou para o meu quarto e deixei lá. Toda noite eu comia um pedaço e sempre oferecia aos outros. Era especial, mesmo.
Queria comprar mais, porém os garotos não apareciam sempre. Um dia, quando vieram, comprei e combinei para me trazerem todo sábado de manhã. Eles vinham. E eu sempre comprava.
Mas o acampamento mudou-se para a outra margem do rio. Aí perdi contato com os meus fornecedores. Procurei o produto em Três Lagoas, em mercearias e outros lugares. Nada. Procurei em Andradina, em Castilho, em Pereira Barreto. Nada. Ninguém conhecia. Ofereciam “catupiry” ou outros desse tipo. Bem claros. Cremosos. Até achei requeijão que não estraga fora da geladeira, sim. Mas tinha gosto muito diferente, não era o “da Véstia”.
Depois saí da obra, mudei para o Paraná, para o Rio de Janeiro, para São Paulo.
Vários anos em cada um desses lugares.
O requeijão virou só uma recordação distante, guardada lá em algum lugar da memória.
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Vinte e cinco anos depois…a volta do requeijão.
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Belo Horizonte
Eu havia feito em São Paulo uma segunda especialidade em engenharia. Agora, engenheiro agrimensor e civil.  Trabalhava numa empresa de grande porte, em Minas, na elaboração de propostas para participar de concorrências.
Um dia o diretor da área me chamou e escalou para visitar uma obra, onde se daria a implantação de um sistema de irrigação. Era para participar de uma reunião com o cliente, de esclarecimentos a todos os licitantes.
Fomos, dois engenheiros, eu de orçamento e um de planejamento de obra. A reunião seria de manhã, das 9 até o meio dia, na cidade de Porteirinha, norte do estado.
Viajamos em avião da própria empresa até a cidade de Janaúba e depois de carro alugado até Porteirinha, a 38 quilômetros. O piloto ficou com o avião em Janaúba. Como tínhamos saído de madrugada, chegamos em Porteirinha às 8 horas. Fomos tomar café, em um boteco. Café, leite, pão, manteiga, queijo e requeijão. Comi de tudo. Quando coloquei o requeijão na boca a memória do paladar, adormecida por 25 anos, despertou e acusou: é o requeijão da Véstia!
Perguntei ao balconista se tinha para vender. Não tinha. Mas disse que em qualquer padaria ou mercearia da cidade eu iria encontrar. O engenheiro que me acompanhava, sugeriu: — Vamos deixar para comprar carne de sol e requeijão em Janaúba, na volta. A cidade é famosa por essas duas coisas. São os mesmos que acha aqui. Vai gostar. Eu também vou levar.
Só um parêntesis. Carne de sol não é carne seca, jabá ou charque. Tem processo de fabricação e gosto bem diferentes.
Continuando…Fomos à reunião e voltamos a Janaúba. O piloto nos esperava lá. Os três fomos comprar a carne de sol e o requeijão. Experimentei antes, para ter certeza de que era igual ao da Véstia. Era. Comprei 3 quilos. E dois de carne de sol. Perguntei ao vendedor que nos atendeu onde mais tinha desse requeijão. Ele explicou: É um produto típico da nossa região. O de Janaúba tem fama de ser o melhor. Mas encontra em Montes Claros, Francisco Sá, Salinas, Porteirinha… não precisa guardar em geladeira.
Às vezes eu sou meio lento de raciocínio. Mas nesse momento “caiu a ficha”.
Arrisquei: — Em Grão Mogol, também tem?
— É claro, em todas as cidades do norte de Minas, tanto as do São Francisco como as do Jequitinhonha. É a nossa “marca registrada”.

Então não era lá que estavam usando a receita do requeijão da Véstia. Era o contrário, ficou claro.
Vó Aurora morou na Véstia, uns 23 ou 24 anos antes de eu chegar lá (veja bem, na Véstia, não estou dizendo em Três Lagoas, onde ela viveu os seus últimos anos). Alguém havia aprendido com ela a fazer o famoso requeijão de Grão Mogol e de todo o norte de Minas. Ou aprendeu com tia Dulita, depois que Vó Aurora a ensinou. E essa pessoa continuava fazendo, quando eu cheguei à Ilha Solteira, tantos anos depois. Talvez a pessoa que aprendeu houvesse ensinado o processo às novas gerações e estas continuaram a tradição, não sei. Mas a receita ficou restrita por lá, mesmo. Não se irradiou nem aos povoados mais próximos. O requeijão fica um pouco escurecido porque a coalhada é cozida até começar a queimar e chegar ao ponto de puxa-puxa, para depois ser misturada com leite fresco. Hoje se encontra a receita na internet.

Depois me informaram, em Belo Horizonte, que se acha para comprar no Mercado Central. Há bancas especializadas em produtos do norte de Minas. A gente chega e pergunta:
— Tem requeijão de Janaúba? Às vezes não tem, mas oferecem:
— De Janaúba, só na semana que vem. Tem de Montes Claros e de Salinas. Serve?
— Mas esse não estraga, fora da geladeira?
— Não, isso a gente garante!
— Então vou provar para ver se é desse mesmo que eu quero. E provo.
— Bom, serve! Me dê dois quilos.

PS:  Para quem quiser fazer em casa,  aqui vai um endereço da receita:

http://sites2.uai.com.br/guiagastronomia/janauba_requeijaodonorte.htm

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