TEMPOS ANTIGOS

A família Dias Bicalho era da nobreza portuguesa e veio para o Brasil no tempo de D. João VI[1].

[1] Já está identificada a presença da família Dias Bicalho em Itacambira em tempos muitíssimo anteriores a 1.808, ano da vinda de Dom João VI para o Brasil. Tudo o que Vó Aurora narrou foi o que presenciou ou recebeu por tradição oral, não fez uma pesquisa sistemática, por isso há algumas inconsistências, neste começo da narrativa.

Era gente rica e fixou-se em Minas, onde mais tarde foi edificada São João D’el Rei.

Dom José Dias Bicalho[2], resolvendo mudar-se para outro lugar de Minas, escolheu terras além de Diamantina, entre os rios Jequitinhonha e Itacambirassu[3]. Para ali seguiu com sua esposa Anna Izabel[4], suas irmãs Maria e Anna, levando muitas alfaias, baixelas de prata, muito ouro e muitos escravos. Fundou a fazenda à qual deu o nome de Itacambira. Em umas trinta léguas em derredor já residiam diversos fazendeiros: os Martins Pereira, Almeida, Sá, Sá e Silva, Soares, Velloso, etc.

[2]  Meu tetravô, batizado em Itacambira (MG), em 06/02/1796, filho de Joaquim Dias Bicalho (pentavô, já residente em Itacambira no ano de 1.792) e de d. Anna Esméria de Barboza (pentavó) e casado com d. Anna Izabel Felizarda de Mello (tetravó). Por certo um ancestral mais antigo veio de São João Del Rei, de onde temos notícia da presença da família Dias Bicalho desde tempos muito mais afastados. Dados obtidos pelo Pedro Augusto.

[3] Itacambira foi fundada, na verdade, como arraial, por Fernão Dias, na busca pelas esmeraldas no norte de Minas. Aparece em documentos antigos com o nome de Tucambira. É uma das localidades mais antigas de Minas Gerais.

[4] Tetravó.

Antônio Martins Pereira[5] tinha dois filhos moços: Francisco e Caetano[6] – negociava com diamantes e logo travou relações com os Dias Bicalho.

[5] Outro tetravô, este em LPD. Filho de Francisco Martins Pereira (pentavô, LPD) e d. Maria Magdalena (pentavó). Casado com d. Francisca Marianna de Paula (tetravó) , por sua vez filha de José de Abreu Guimarães e Motta (pentavô) e d. Tereza Maria de Jesus (pentavó). Registros colhidos em Itacambira, por Pedro Augusto.

[6] Duas vezes trisavô (uma em LPD).

Francisco casou-se com Maria, irmã de D. José e pouco distante montou uma fazenda com todo o conforto.

Caetano casou-se com Josepha[7], parente dos Dias Bicalho e foi residir na fazenda Santo Antônio, que ficava duas léguas além de Grão Mogol (fazenda que lhe dera seu pai).  Ali nasceram seus filhos: João Baptista, Gualter [8],Francisco, Pedro, Joaquim[9], Maria Vicência, Emygdio[10] e Ramiro.

[7] Em solteira, Josepha Carolina Dias Bicalho, duas vezes trisavó.

[8]  Mais tarde Barão de Grão Mogol.

[9] Bisavô, LPD.

[10] Também bisavô. (Que história é essa, dirá o leitor, os dois irmãos são seus bisavôs ?)   Sim, é isso mesmo. Joaquim Martins Pereira era pai do vô Martins; e seu irmão Emygdio pai da vó Aurora, que casou-se com o primo. Por isso Caetano e Josepha Carolina são nossos trisavós duas vezes.

Por este tempo Dom José tinha os seguintes filhos: José Franchfort, Joaquim, Francisco, Joanna, Antônia[11] e Maria Izabel.

[11] Trisavó. Em documentos antigos aparece com diferentes nomes após Antônia; o mais encontrado é Antônia Ricarda Felizarda Velloso, após o casamento.

Caetano, não querendo que seus filhos ficassem sem instrução, mandou-os estudar na Bahia.

Os três mais velhos não quiseram se formar. Pedro formou-se em Ciências Jurídicas e Joaquim em Medicina[12]. Quando voltaram, João Baptista casou-se com Joanna, filha de D. José; Maria Vicência casou-se com Lizardo de Sá e Silva; Gualtér casou-se com Emília, sobrinha de Lizardo; Pedro casou-se com Amélia, irmã do deputado Lindolpho[13].

[12] Joaquim formou-se em medicina na primeira faculdade de medicina fundada no Brasil, em Salvador. Pedro fez direito em São Paulo, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Sobre Joaquim há uma página neste site, em “Relíquias de Família”.  Sobre Pedro a página está em elaboração. 

[13] E filha do chefe político de Januária (MG), tenente-coronel Manuel Caetano de Souza e Silva. Do livro “Grão Mogol”, de Manuel Esteves.

Maria Vicência e Lizardo tiveram os filhos: Idalina, Theodolinda e Nestor Sá e Silva.

Gualter e Emília tiveram: Matilde, Orlinda e Sérgio.

Dr. Pedro e Amélia tiveram: Quita, Zizinha e Joãozinho[14].

[14] João Baptista Martins Pereira, advogado, jornalista e político. Patrono da cadeira n° 8 da Academia Mineira de Letras. Autor, dentre outros, do livro “A Mazorca”, que relata fatos históricos ocorridos no final do século dezenove em Carangola (MG) onde morou. Há um exemplar deste livro no Arquivo Público Mineiro. Tenho outro exemplar. Estou preparando uma página com dados biográficos dele. Foi  colunista do jornal “Correio da Manhã, do Rio de janeiro. Adotou o nome simplificado de Baptista Martins, em seu trabalho.

Dos filhos de D. José, Joanna casou-se com João Baptista, filho de Caetano; José Franchfort casou-se com uma moça de nome Maria; Joaquim Dias Bicalho casou-se com a viúva D. Irene; Francisco (Xixico) casou-se com Isilda, filha da Irene; Maria Izabel casou-se com Rodrigo de Oliveira Pinto e Antônia casou-se com Leonel Velloso[15].

[15] Outro trisavô. Nome inteiro Leonel José Velloso, batizado em 26/12/1.831, filho de João José Velloso (tetravô, nascido em 17/02/1.795, batizado em 1.796) e Esperança dos Santos Lima (tetravó) . João José era filho de Bento Luiz Velloso (pentavô) e Vitória Vieira de Azeredo Coutinho (pentavó). Dados colhidos em Itacambira, por Pedro Augusto.

Contam que, indo Leonel visitar os Dias Bicalho viu numa área Antônia, que pouco mais tinha de 14 anos, brincando com bonecas, com algumas negrinhas, aproximou-se e disse: – Se te casares comigo te darei uma bonita boneca deste tamanho. A menina, interessada, disse que sim. Algum tempo depois se fazia o casamento. Ele não se esqueceu da promessa e enquanto banqueteavam, ela vestida de noiva, com as negrinhas, brincava com a boneca. Deste casamento nasceram os filhos: Joanna, Mariquinha[16], Orozimbo e Ná[17].

[16] Maria Norberta Velloso, minha bisavó, após o casamento com Emygdio, Maria Norberta Martins Pereira.

[17] Maria Esméria Velloso, após o casamento com Ramiro, Maria Esméria Martins Pereira.

Joaquim Dias Bicalho e D. Irene tiveram: Maria Flora, José, Joaquim e Antônio[18].

[18] Batizado : “Aos quatro de outubro de mil oitocentos e setenta e quatro baptisei solemniter e impuz Sanctos Oleos a Antonio, branco, nascido a vinte nove de Maio proximo passado, filho legítimo do Major Joaquim Dias Bicalho e de Dona Irene Affonsina Bicalho; forão padrinhos o Douctor José Ribeiro DÁlmeida Santos e Dona Antonia Ricarda Felisarda Bicalho. Para constar ….etc”  Livro de batizados da Igreja de Santo Antônio – Grão Mogol. Obs.: o padrinho era o Juiz de Direito e futuro genro de Gualter. A madrinha, tia do afilhado.

Joaquim Martins Pereira, logo que se formou, voltou para Minas e começou a clinicar; a zona era extensa, viagens a cavalo e quase não havia doenças naquele clima esplêndido. Numa das viagens conheceu Carlota C. de Araújo[19], que no momento cantava uma modinha; gostou dela e pediu-a em casamento.

[19] Minha bisavó, Carlota Carolina.

Nesse tempo houve grande influência de diamantes em Lençoes, na Bahia. João Baptista, Gualter e os cunhados Lizardo e Leonel resolveram ir para Lençoes, onde compraram terras.[20]

[20] O primeiro que se deslocou para a Chapada Diamantina foi o pai deles, Caetano Martins Pereira, com a esposa, Josepha Carolina, a qual depois de algum tempo faleceu lá. Provavelmente Caetano foi chamado por Felisberto Augusto de Sá, chefe político em Lençóis, nascido em Grão Mogol (na fazenda Brejo das Almas, hoje município de Francisco Sá), possivelmente um parente afastado de Caetano. Estamos pesquisando esse possível parentesco.

 Dr. Joaquim, vendo que a medicina naquela zona de Minas não dava para fazer um futuro, resolveu mudar-se também. Casou-se e foi para Santa Izabel do Paraguassu[21], onde comprou uma casa e montou um consultório. Fez sociedade com seu cunhado Lizardo numa mina de diamantes, no Córrego do Mel. Lizardo tomou a direção da mina e ele vendia o produto; a despesa não era grande, porque eles tinham muitos escravos. Nesta casa nasceram seus filhos: Joaquim[22], Elvira, João e Antônio.

[21]  Província da Bahia, região da Chapada Diamantina.; hoje, cidade de Mucujê.

[22] Meu avô (LPD), primo e marido da Vó Aurora.

Os filhos mais novos de Caetano – Emygdio e Ramiro – cursavam ainda a Academia quando chegou o apelo do Imperador pedindo o auxílio dos Voluntários da Pátria para acabar com a Guerra do Paraguai.

Eles, moços, ardorosos patriotas, deixaram logo os estudos e foram aliciar e reunir os voluntários. Gualter e o Baptista forneceram o dinheiro; Dr. Joaquim entrou com os serviços médicos e a direção do batalhão até o Rio. (Nas suas lembranças está anotado: horrível trabalho).

Emygdio e Ramiro levaram os soldados[23] e seguiram até a fronteira (um era capitão e outro tenente)[24].

[23] Grande parte dos soldados era constituída de escravos pertencentes à família e aos quais foi concedida liberdade para incorporação ao batalhão dos Voluntários da Pátria

[24] A força organizada por Gualter e comandada pelo capitão Emygdio era uma companhia com 46 homens, denominada “Companhia do Remanso”  e foi incorporada ao Vigésimo Quarto Batalhão de Voluntários da Pátria, organizado em Salvador com contingente vindo de Lençois; esse batalhão partiu de Salvador para o Rio de Janeiro em 17 de junho de 1.865 no vapor Saladino, sob o comando do tenente-coronel Domingos Mondin Pestana; seguiu para o sul em 3 de julho, com destino a Porto Alegre, com passagem por Desterro, em Santa Catarina (hoje Florianópolis); o transporte do 24° Corpo de Voluntários (da Bahia) e do 28 ° ( do Rio Grande do Norte) do Rio de Janeiro para o sul foi feito pelos vapores Jaguaribe, Falcão e Brasil; De Porto Alegre partiu a 20 de julho para o Rio Pardo, tendo os vapores Apa, Sete de Setembro e Irapuã transportado os Corpos de Voluntários 19° e 24°. O 24° CV foi incorporado ao Exército do Barão de Porto Alegre e posteriormente ao do general Osório. Combateu  em Tuiuti ( 24 de maio de 1.865 ), Punta Ñaró  ( 16 de julho de 1.866 ) e Isla Carapá ( 18 de julho de 1.866 ) , tendo em todos eles sofrido grande baixas, entre mortos e feridos; estando o 24 ° Corpo de Voluntários bastante reduzido em virtude dessas baixas  foi dissolvido em 15 de setembro de 1.866  pelo general Polidoro. Os feridos foram dispensados e os válidos incorporados a outras unidades.As informações sobre as tropas foram obtidas do livro “Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai, do General Paulo de Queiroz Duarte, edição da Biblioteca do Exército Editora.  

Antes de seguir, Emygdio foi se despedir da família de Leonel e ao dar a mão a Mariquinha disse: – Se eu não morrer na guerra voltarei para me casar com você.

O Imperador, em agradecimento aos serviços prestados pelos irmãos Martins Pereira, deu a Gualter o título de Barão de Grão Mogol. Este não queria o título porque tinha idéias republicanas. O Imperador exigiu que ele aceitasse. Quanto à recompensa, foi ele quem forneceu mais dinheiro.

Dr. Joaquim, algum tempo depois, apenas com 36 anos, deixou de existir, deixando órfãos quatro filhinhos. Disseram que o farmacêutico, por engano, trocara a fórmula do remédio.

João Baptista e D. Joanna não tiveram filhos. D. Joanna encarregou-se da educação das sobrinhas (filhas de Leonel), mandou buscar um professor (Amândio) e ela, que muito sabia, ensinou-lhes a coser, bordar, fazer crivos, etc. e dirigir os serviços que uma dona de casa devia saber.

Emygdio voltou da guerra e casou-se com Mariquinha[25]. Trouxe para ela uma máquina de costura, das primeiras que vieram para o Brasil. Ramiro casou-se com Idalina, filha de Lizardo[26] e tiveram duas filhas: Elfrida e Idalina[27]. Ao nascer a segunda filha, Idalina mãe faleceu.

[25] Conforme consta no registro de nascimento da Vó Aurora, que localizamos em Grão Mogol, seus pais foram recebidos (isto é, casaram-se) nas Lavras de Paraguassu, província da Bahia.

[26]  Portanto, sua sobrinha, filha da irmã Maria Vicência.

[27] É a mãe do Major Mário Martins de Freitas, militar do Exército, expedicionário da FEB na Itália, além de romancista de sucesso, historiador e mineralogista respeitado, falecido em Belo Horizonte, em 1.959.

Os irmãos Martins Pereira e Leonel, desgostosos com estas mortes, retornaram a Minas.

O pai de D. Carlota mandou buscá-la. Lizardo e Maria Vicência ficaram em Lençoes.

 

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