A Missa na Fazenda Angélica

Uma história de 1.908

Na década de 1.950, Tio Itaim tinha uma chácara em Piratininga, perto de Bauru.

Por essa época o Amaury estava morando com ele e trabalhava na Cooperativa da Noroeste.

Nos fins de semana às vezes eu ia com eles à chácara.

De noite, depois do jantar, não havia nada para fazer, a não ser bater papo.

E o tio nos contava “casos” antigos, sempre engraçados, curiosos ou instrutivos.

De um desses, me lembro.

O caso aconteceu na época da infância dele, lá na Fazenda Angélica, em Rio Claro. Por volta de 1.908.  

Localização da Fazenda Angélica

Localização da Sede da Fazenda e do antigo cemitério, hoje ocupado pelo canavial, restando apenas o túmulo do Barão de Grão Mogol.

Ele teria uns 11 anos.

E o tio Itacil, 8 anos.

Estavam no armazém da Fazenda, que ficava na casa da sede (que hoje é tombada pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), no distrito de Ajapi,  em Rio Claro).

A parte de cima do sobrado era a residência dos familiares do Barão de Grão Mogol, que já havia falecido. No térreo funcionava o armazém da fazenda e o Vô Martins era o gerente.

A fazenda tinha uma capela, mas não havia padre permanente.

O padre de Rio Claro ia até lá, para fazer missa, de vez em quando.

Acontece que não ia aos domingos, porque nesse dia precisava fazer a missa na cidade.  Ia durante a semana, quando dava certo, quando conseguia transporte.

Nesse dia em que os dois estavam lá no armazém apareceu o padre, informando que iria fazer uma missa, mais tarde. Pediu para o pessoal comparecer, lá na igrejinha.

Mas era dia útil, dia de trabalho. Os que estavam no armazém fazendo compras se desculparam com o padre. Não dava.  Vô Martins, mesma coisa, não podia deixar o armazém. Mas iria avisar quem aparecesse lá.

Os dois, Itaim e Itacil, prometeram ao padre que iriam.

E na hora marcada, foram.

Quando chegaram à capela, deram conta de que eram os únicos assistentes. Só eles foram.

Acontece que os dois, apesar de batizados, raramente iam à igreja, ainda mais morando na fazenda.

Nessa época a missa era toda dita em latim, menos o sermão.

Pais, professores e padres eram muito respeitados e até temidos. Crianças não podiam fazer nada errado, ou vinha o castigo, leve ou rigoroso, mas sempre vinha.   

Itaim sabia que em determinada parte da missa era preciso ajoelhar e depois podia ficar sentado, de novo.

Mas não lembrava em quais momentos isso acontecia.

Não tinha mais ninguém para servir de exemplo, para acompanhar.

Estavam num beco sem saída.  Veio a preocupação. Iriam passar vergonha, escandalizar o padre e quem sabe até enfrentar uma advertência enviada por ele aos pais. Complicado.

Ir embora, não dava mais. O padre já os tinha visto, quando chegaram.

E agora?

Nisso, teve uma lembrança brilhante, de conversas ouvidas das mulheres da fazenda que visitavam Vó Aurora.

Assunto resolvido. Nada de castigo, nada de passar vergonha. 

Foi só dar a instrução ao irmão mais novo e saíram-se magnificamente.

Ele havia escutado uma das visitas contar à Vó Aurora que fez uma promessa e que estava cumprindo. A promessa era assim: durante alguns meses, assistir as missas inteiras, desde o começo até o fim, de joelhos.

Ora, se para pagar promessa podia ficar ajoelhado a missa inteira, então é claro que o padre não iria se zangar se fizessem isso.

Ajoelharam-se os dois, e ali ficaram, devotos, compenetrados, até terminar a missa, uma hora depois. Só levantaram quando terminou e aí pediram a bênção ao padre. Esse, não disse nada, não perguntou nada.  Só deu a bênção.

Problema resolvido, vergonha evitada, castigos ou repreensão, idem.

A dor nos joelhos, pelo resto do dia, valeu pelo descarte do vexame e outras possíveis consequências. 

 Sede da Fazenda Angélica, ou o Casarão do Barão de Grão Mogol.

Na parte superior morava a família e no térreo funcionava o armazém. 

Créditos:

Imagens e fotos obtidas no Google Earth

Para comentar, clique aqui.