Memórias de Vó Aurora

Apresentação

Por Joaquim Alves Martins

Estas “Memórias de Vó Aurora” foram ditadas pela autora já em idade avançada, na cidade de Bauru, estado de São Paulo e em Três Lagoas, Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul e não produzidas como apontamentos diários ao longo da vida. Por esse motivo estamos dando ao trabalho este nome, apesar de ser mais citado na família como o “Diário da Vó”, como o chama carinhosamente, por exemplo, a prima Célia.

Seja, pois, “Diário da Vó Aurora” um nome alternativo.

Foi ditado por minha avó Aurora, aliás, Maria Aurora Martins Pereira, em Bauru, por volta de 1.950 e pacientemente anotado pela Benilda de Barros Mainardi, hoje Benilda de Barros Mainardi Nagata, residente em Campo Grande – MS (a quem apresentamos nosso agradecimento e rendemos nossa homenagem) e em Três Lagoas por meus primos.

Como a narrativa não será lida somente pelos parentes mais próximos, cabem esclarecimentos.

Qual o motivo de outra pessoa precisar escrever o que a autora redigia?

Nessa época ela já havia perdido uma vista, vazada por um graveto de mandioca quando partia os talos para plantio, em Mato Grosso, onde morara. O outro olho, atacado por uma doença e em parte queimado quimicamente por um colírio mal manipulado em farmácia, não lhe dava visão de quase nada; lia com muita dificuldade, com auxílio de óculos e aproximando a escrita bem perto do rosto. Além do problema de visão sofrera uma queda, partindo a perna e na soldagem os ossos se sobrepuseram lateralmente, o que lhe ocasionou uma perna mais curta, obrigando-a a locomover-se sempre com o uso de muletas.

Foi assim que a conheci em minha infância. Foi a grande companheira, a amiga, conselheira, não só de mim como de meus irmãos e primos, em Bauru e depois em Três Lagoas, onde passou os últimos anos de vida.

Ela nos ensinou a decifrar palavras cruzadas e enigmas de revistas; nos ensinou os jogos de baralho, bisca, solo, buraco. Pedia que lêssemos livros em voz alta para que ouvisse, o que afinal valia como aquisição de conhecimento para cada um. E principalmente nos contava estas mesmas histórias que estão aqui e tantas outras, a do eclipse, da vida na escola em Diamantina, da fazenda Angélica, em Rio Claro, da Véstia…

Quando faleceu deixou um pequeno baú onde estavam guardados os originais destas Memórias, além de uns poucos outros objetos.

Meu pai, por razões que nunca soubemos, incinerou o baú com todo seu conteúdo, no dia do sepultamento da mãe, sem dúvida sob forte tensão emocional. Talvez achasse que com sua morte tudo o que a ela estivesse ligado devesse ser preservado da curiosidade alheia.

Sempre lamentamos a perda das Memórias. Para mim, para a Célia, João Baptista, Esther, era um tesouro irremediavelmente perdido.

Quando comecei a pesquisar alguma coisa sobre a história da família e encontrei no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais os originais do livro não publicado “O Município de Grão Mogol” de autoria do Major Mário Martins de Freitas, descendente de Ramiro Martins Pereira (Tio de Vó Aurora), mais ainda desejei ter à mão o documento perdido; porque além das lacunas, em assuntos a que o Major jamais teve acesso, encontrei com pesar informações erradas como a de indicar como filho de Emygdio Martins Pereira o seu sobrinho, Marechal João Baptista Martins Pereira, filho do Dr. Joaquim, irmão de Emygdio.

Conheci Pedro Augusto Conde Lobo Martins quase por acaso; eu estava fazendo uma pesquisa sobre o passado da família nos cartórios de Grão Mogol, em companhia da Célia. O dono do cartório, Joãozinho, notou que estávamos consultando os mesmos documentos procurados recentemente por outra pessoa. Quando me informou seu nome já percebi tratar-se de parente não conhecido. Entramos em contato, em Belo Horizonte. Ao lhe perguntar de qual dos filhos de Caetano Martins Pereira é descendente, outra surpresa: de Emygdio, um dos meus bisavôs, significando parentesco bem mais próximo do que eu estava imaginando. O avô dele, Mauro Lobo Martins (cujo nome, aliás, aparece no texto das Memórias) é primo primeiro de meu pai e mora em Belo Horizonte, a menos de duzentos metros de minha casa. É médico, está com aproximadamente 90 anos, sendo filho de Pedro, irmão da Vó Aurora, três anos mais moço. [1]

Quando o Pedro Augusto me perguntou se eu estava me baseando no diário de minha avó para orientar as pesquisas, um frio me percorreu a espinha…Com voz triste lhe contei que os originais tinham sido destruídos e perguntei como sabia da existência daquele manuscrito. E ele, sem notar talvez minha emoção, disse que tinha uma cópia e que iria dar-me um xerox…

E foi assim que, 33 anos depois, o diário chegou novamente às mãos de um descendente de dona Aurora.

Pedro está fazendo uma pesquisa profunda, extremamente séria, sobre a família Martins Pereira.  Seus achados já chegam ao final do século dezessete, às próprias origens de Minas Gerais.[2]

É muito cuidadoso com as informações, vai documentando os parentescos de forma inequívoca, com registros de cartórios, de livros antigos de igrejas, cruzando informações com livros de História (não é para espantar, a família está em muitos). Seu trabalho dará origem a uma publicação, que aguardamos com ansiedade. Este diário auxilia o trabalho. Pena que seus estudos na escola de Medicina deixem-lhe pouco tempo para a pesquisa, que exigirá novas viagens a Itacambira, Grão Mogol e talvez, Matias Cardoso, algumas cidades às margens do São Francisco, e na Bahia a Chapada Diamantina (Salvador também, quem sabe?).[3]

A divisão em capítulos aqui apresentada é invenção minha. A narrativa original não previu essa divisão, se bem que em certos pontos muda de assunto, sugerindo um novo capítulo. Acredito que os títulos teriam sido aprovados por ela.

Por fim peço desculpas pelas minhas notas de rodapé àqueles que vierem a ler a narrativa, em particular por aquelas notas em que vou identificando os antepassados (meu trisavô, minha bisavó, etc.). Isso é feito só na primeira aparição do nome. A finalidade única é a de ir chamando a atenção dos descendentes que vierem a ler o relato, sobre o exato grau de parentesco de cada pessoa apresentada. Não fazendo isto talvez não sintam eles que se está falando ali de um ancestral, de uma pessoa que lhes deu origem e então lhes pareça apenas um personagem histórico, distante.

O registro dos ascendentes em Linha Paterna Direta, (LPD), isto é, a ascendência pai – avô – bisavô,…… , longe de significar menor importância dada aos antepassados por parte de mãe, avó ou bisavó, tem como justificativa a identificação mais fácil daqueles que nos legaram o sobrenome Martins. Essa seqüência nos leva à Bahia do século 17. [4]

APRESENTAÇÃO DA TERCEIRA CÓPIA

Por Dirce Estanislau Moreira

Dedico este caderno à minha irmã, Laís Estanislau Anastásia.

Estas anotações foram tiradas de uma cópia tirada pelo Hélio (meu irmão), de um caderno enviado pela tia Aurora (irmã de minha mãe Aracy, do primeiro matrimônio, e a mais velha de toda a família), para a mamãe[5].

Vosica, (Maria Norberta) e mãe de minha mãe Aracy, casou-se três vezes e ficou viúva relativamente ainda moça.

Casou-se no 1° matrimônio com Emygdio e teve os seguintes filhos: Ramiro, Aurora, Pedro, Joaquim, Sinhazinha, Sinhá Pequena e Emygdio (este morreu pequenino).

No 2° matrimônio casou-se com o cunhado, irmão do Emygdio Martins Pereira — João Baptista Martins Pereira — com o qual teve as filhas: Isaura e Aracy.

No 3° matrimônio casou-se com o professor da fazenda, Felisberto Sá. Tiveram as seguintes filhas: Alice, Mária e Sava.

 

[1] Este texto foi escrito em 1.994, para a edição impressa.  Dr. Mauro faleceu em 1.995, aos 91 anos.

[2]  O original deste texto foi escrito em 1.994. Hoje as pesquisas estão muito mais avançadas. Pedro já identificou o mais antigo ancestral que veio para o Brasil, no século 16 e tem dados biográficos bastante detalhados, de muito outros.

[3] Hoje é médico radiologista, em Belo Horizonte. Já esteve nas cidades do São Francisco fundadas pela família, esteve na Chapada Diamantina, Salvador e planeja mais pesquisas.

[4] Correção ao texto original: Século 16, segundo as mais recentes pesquisas. O que nos leva à Bahia é o sobrenome Martins. Entretanto há forte descendência dos Cardoso de Almeida (bandeirantes paulistas), cujo sobrenome se perde por ser  ramo materno.

[5]  A primeira cópia é a enviada pela autora à sua irmã Aracy; a segunda é a copiada da primeira pelo Hélio, filho de Aracy; a terceira é a feita por Dirce, copiada da segunda; todas, cópias manuscritas; a xerox que recebi é da terceira cópia.

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