INFÂNCIA

Uma vez papai tinha voltado da cidade e conversava com mamãe: eu ouvi que eles falavam sobre Lalá, marido e filhos. Nesse tempo falavam muito em escravos que iam para as matas trabalhar no café; eu pensei que eles iam ser vendidos… e soluçando fui contar a Lalá. Mamãe me seguiu dizendo:- Ninguém vai vender a tua Lalá, aqui está a carta de liberdade para ela, marido e filhos… Lalá recebeu o papel chorando de satisfação, me pegou ao colo e me abraçou.

Um dia Lalá me disse:

— Iasinha, tá aparecendo no céu uma estrela de cauda que é uma beleza!

–Ah! Lalá, me acorde, pelo amor de Deus, que eu quero ver.

 –E se sinhô ficar zangado?

 –Eu falo com ele e ele deixa.

Depois de meia noite Lalá bateu na porta do meu quarto: — Iasinha, Iasinha, é hora…

Papai foi quem respondeu: — O que é que quer com a menina a esta hora?

Eu, humildemente: — Está aparecendo uma estrela de cauda muita bonita e pedi à Lalá que me acordasse.

–Vou ver isto, foi o que papai disse. E, quando chegamos do lado de fora, ficamos deslumbrados.

Para mim era a estrela que guiou os Reis Magos, que aparecia de novo, tão grande e tão luminosa! Daí por diante todos da casa se levantaram para ver a estrela até que a luz do dia não deixou mais distinguí-la.

Meu irmão já lia cartas de nomes e eu estava começando o bê-á-bá. Júlio, afilhado de mamãe, também estava começando a aprender; ele suava muito nas mãos e as cartas logo viravam pedaços; eu imaginei que pregando a carta num pedaço de papelão daria para ele aprender. Para fazer o grude fui à despensa, mas tirei araruta em vez de polvilho e como o leite estava ali, pus leite!  Pronto o grude, provei… e desta vez a carta não foi colada…

Um dia eu estava brincando no quintal quando mamãe me chamou e disse: — A família do Dr. Pedro está lá na sala, abrace suas primas e beije a mão de sua tia.  No primeiro momento eu fiquei acanhada, mas depois satisfeita de ver Quita e Zizinha para brincar. Tio Pedro ia de mudança para Santa Luzia de Carangola, onde ia advogar. Resolveu deixar seu filho Joãozinho[1] para aprender as primeiras letras juntamente com os filhos do Dr. Joaquim que estavam em Santo Antônio, em casa do tio Baptista e aos quais o professor Amândio estava ensinando.

[1] O político, jornalista e escritor João Baptista Martins Pereira, patrono da cadeira número 8 da Academia Mineira de Letras.Mais informações no capítulo anterior, A FAZENDA PALMEIRAS. 

Depois que tio Pedro foi-se embora, um dia mamãe e tia Ná combinaram irmos todos à Santo Antônio visitar tia D. Anna[2], que há muito tempo não viam. Bem cedo os animais estavam arreados, eram duas léguas apenas, mas que passeio agradável!

[2] Irmã de Dom José Dias Bicalho e tia-avó da autora.

Depois de atravessar os campos fomos parar na beira de uma grande lagoa. Como ficamos entusiasmados, eu, minhas primas Elfrida e Iazinha e meu irmão Ramiro. Belos patos nadavam, dois casais de alvíssimas e imponentes garças voando, mudavam de lugar; vimos uma coisa preta que fazia mover a água e  disseram:– Aquilo é um jacaré.

Chegamos à fazenda, éramos esperados com um lauto almoço; havia muitas escravas que faziam o serviço. Fomos encontrar tia Donana em seu quarto; estava  muito velhinha, com um vestido muito simples, de fino linho branco. No quarto ficavam sempre duas escravas, para o que ela precisasse (Sara e Lia).

Enquanto tia Ná e mamãe conversavam, nós, a criançada, fomos para o quintal; havia muitas frutas de diversas espécies. Não me esqueço dos araçás, que havia em grande abundância, bem maduros, deliciosos, e de um pé de café cujos galhos eram tão fortes que a gente podia subir. Disseram que fora plantado há muitos anos e ainda produzia mais de uma arroba.

Mais tarde fomos de novo ao quarto de tia Donana (que tinha quase noventa anos); ela mandou que Lia e Sara pusessem diante dela uma grande canastra e que fossem arrumando tudo em cima de uma cama. Quanta coisa bonita! Quanta roupa de linho bordada e de seda! Quando chegaram uns lindos lençóis de seda estampados e com franjas ela separou três, dizendo: — Um para Aurora, um para Elfrida, um para Iazinha. Depois abriu uma caixa de jóias, tirou um bonito colar de contas de ouro com uma linda cruz e pôs no meu pescoço; deu um de outro formato à Iazinha e um broche à Elfrida.

Esta tia Donana era Anna, irmã do Dom José, que tinha vindo morar em casa do afilhado, depois da morte da sobrinha. Quando moça, quiseram que ela se casasse com um rapaz de quem ela não gostava. No dia do casamento ela mandou entregar a ele uma bolsa cheia de ouro, um forte escravo e duas bestas arreadas e dizer-lhe que nunca aparecesse em sua presença. Deste moço ninguém mais deu notícias, foi o que mamãe nos contou e continuou: — No tempo de D. Joanna tudo aqui era bem organizado. Numa grande sala, diversas escravas costuravam, bordavam e ensinavam as negrinhas. Havia a sala do barbeiro, a saleta onde amassavam o pão e faziam as diversas quitandas. A fazenda tinha alfaiate, carpinteiro, ferreiro, etc.

 Passado algum tempo nos disseram: — Amanhã vocês vão conhecer a Lagoa do Campo, que é muito mais bonita que a Lagoa de Santo Antônio, que vocês tanto admiraram. Arrumou-se o passeio. Eram mais de vinte cavaleiros; um cargueiro com as coisas de comer e duas escravas para o serviço; levavam linhas e anzóis. Foi um passeio esplêndido! Íamos pelo mato e de repente ficamos deslumbrados ao ver aquela lagoa tão redonda e tão limpa! Não tinha juncos nem capim, era toda rodeada por fino relvado; parecia impossível que a natureza fizesse coisa tão perfeita. As árvores depois da relva eram altas e havia uma sombra convidativa. Apeamos todos. Muitos foram logo tratar da pescaria. De repente vimos enormes traíras, limpinhas, indo para a panela e daí a pouco eram saboreadas com delicioso pirão de farinha de mandioca. Depois do descanso o saboroso café. Continuamos para a roça do Curiacá que era do tio Ramiro. Chegados ao rancho os grandes foram ver as plantações e nós, a criançada, voltamos para o córrego e ficamos a tarde toda dentro d’água a procurar diamantes. Felizmente tinham se lembrado de levar uma peneira. No meio da pedraria que levamos acharam dois chibiuzinhos.

A volta foi uma brincadeira, a ver qual o cavalo que corria mais; o meu parecia que voava.

Tio Baptista continuava com suas viagens de negócios. Receando que tia Donana morresse na sua ausência, mandou levá-la e os três sobrinhos para a Palmyra[3]; então mamãe passava grande parte do tempo em casa de tia Ná, lendo e conversando para distrair a velha.

[3] Pela primeira vez aparece no manuscrito escrito com Y. Nos documentos  de cartório, como testamentos, inventário, partilhas,  aparece sempre Palmyra.

João{4} e Antônio logo depois das lições iam para o campo armar arapucas, colher frutas, etc.

[4] Este é o Marechal Martins Pereira. Há muito material sobre ele neste site. 

Joãozinho do Dr. Pedro, mais moderado, mandava buscar olhos de buriti e passava a maior parte do tempo fazendo delicadas cordas de seda. Eu era sempre a sua ajudante neste trabalho. Quincas[5], o filho mais velho do Dr. Joaquim, foi com o tio Baptista , para continuar os estudos em Diamantina.

[5] Joaquim Martins, meu avô (LPD).

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