EM GRÃO MOGOL

Quando completei sete anos estava pronta a escola. Papai, meu irmão e um pajem seguimos para a cidade. Tínhamos que subir a serra…, pois a cidade ficava num planalto a descambar para o outro lado[1]. De tardinha chegamos. A casa de minha avó não era o sobrado que eu conhecera e em que fui batizada. Agora era uma casa com a frente quase rente com a rua; a calçada de trás ficava mais de um metro do chão do quintal, que ia em desnível  para o lado do ribeirão[2].  Havia muitas laranjeiras, bonitas romãzeiras, que da calçada se podia apanhar as frutas. Havia um coqueiro da Bahia tão alto que o apanhador dos cocos ficava pequenininho. Ao pé do coqueiro fizeram um muro, tendo dois metros de cada lado e um metro de altura, cheio de terra e plantado de cravos e margaridas.

[1] Eu e a Célia percorremos boa parte deste caminho, conhecido hoje como a “estrada do Barão”, calçado de pedras  e que transpõe a Serra.

[2] O ribeirão do Inferno ou ribeirão Grão Mogol. Quando eu estive lá, no ano de 1.994 ainda existia essa casa, estava abandonada, sem nenhum móvel, só paredes e teto. E o quintal, que terminava no ribeirão, tinha muitas fruteiras, inclusive um coqueiro.

Foi nesta casa que vi meu pai pela última vez. Eu estava brincando no quintal quando minha avó me chamou e na calçada encontrei papai, que me pegando em seus braços, me beijando e abraçando, disse: — Vim me despedir de ti, vou fazer uma longa viagem e não sei se tornarei a te ver. Ele chorava e eu também. Tio Orozimbo[3] foi com papai.

[3] Orozimbo Velloso, irmão de dona Maria Norberta e da tia ” Ná “, dona Anna Esméria Velloso Martins Pereira.

Algum tempo depois fomos para a fazenda. Tia Ná precisava de minha avó. Penso que foi quando nasceu Orozimbo, pois tia Ná já tinha João Carlos e Emigdio[4].

[4] Nasceu em 01/08/1.883. Batizado em 03/02/1.884. Padrinhos Augusto José da Silva e Rodrigo de Oliveira Pinto. Livro de batizados da Igreja de Santo Antônio – Grão Mogol.

Um dia… foi em outubro de 1.883, tia Ná nos levou todos para a casa dela e no meio da maior amargura soube que meu pai tinha ficado enterrado no Salto, em Canavieiras, no estado da Bahia[5], em 23-9-1883.

[5] É estado de Minas Gerais. A partilha dos bens registra como local do sepultamento a Fazenda do Poço, no distrito de Salto (hoje município de Salto da Divisa), município de Arassuaí, Minas Gerais, divisa com a Bahia. Transcrevo aqui um trecho do livro “A Família Velloso”, de Joaquim de Almeida Velloso, primo da Vó Aurora, onde se relata o acontecido com o pai dele, Orozimbo Velloso:

“Aos vinte anos, seu cunhado Emídio Martins Pereira convidou-o para uma viagem à terra baiana, com o mesmo objetivo que levara Leonel àquelas terras.

O começo da viagem foi feito de canoa, descendo o Rio Jequitinhonha até a sua foz, em Belmonte. Aí adquiriram cavalos e continuaram a viagem para o interior no intuito de atingir Lençóis.

Durante esse percurso, Emídio Martins adoeceu de uma febre maligna, resultando disso a volta a Belmonte e embarque, de novo em canoa, para a volta à casa. Entretanto, o estado de saúde do enfermo agravou-se perigosamente, vindo ele a falecer ao atingirem a divisa dos territórios de Minas e Bahia, uma vila denominada Salto, hoje Salto da Divisa, à margem do rio, onde foi sepultado.

Como sofria ao lembrar que não o veria mais! Foi a primeira grande dor de minha vida e eu tinha apenas 9 ( nove) anos.

Tio Orozimbo, para que mamãe não sofresse um choque muito repentino, mandou um dos escravos avisar a tia Ná, para preparar os espíritos.

Emigdio Martins Pereira deixou os filhos: Ramiro,  Aurora, Pedro[6], Joaquim[7], Sinhazinha, Sinhá Pequena[8] e Emigdi[[9] – este morreu pequenino.

[6] Batismo : “Em o mez de Setembro de mil oito centos setenta e sete nesta Matriz Baptizei solemniter e impus Santos Oleos a Pedro, branco, nascido a treze do presente mez, filho legítimo do Capitão Emygdio Martins Pereira e Dona Maria Norberta Martins; forão padrinhos o Capitão João Baptista Martins e Orozimbo José Velloso. Para constar mandei fazer este que me assigno. O vigário José Thiago de Siqueira.” Livro de Batismo da Igreja de Santo Antônio – Grão Mogol.

[7] Batismo : “Em o mez de Novembro de mil oitocentos setenta e oito Baptisei solemniter impus Santos Oleos a Joaquim, branco, nascido a 13 de Agosto proximo passado, filho legítimo do Capitão Emygdio Martins Pereira e Dona Maria Norberta Martins. Forão padrinhos o Major Joaquim Dias Bicalho e Dona Joanna Evangelista de Aquino. Para constar mandei fazer este que me assigno. O vigário José Thiago de Siqueira.” Livro citado.

Este irmão de Vó Aurora cheguei a conhecer em Bauru, quando ele foi de Araras, onde residia e era chefe da Secretaria de Agricultura, visitar a irmã. Foi até minha casa (eu tinha por aí uns seis ou sete anos) e, estando eu no portão, disse ele que tinha ido conhecer o seu xará e me deu um abraço. Usava barba curta. Lembranças que ficam.

[8] Os nomes correspondentes são: de Sinhazinha , Antônia e de Sinhá Pequena, Josepha, homenageando as duas avós. Evidentemente os apelidos foram dados pelas escravas que trabalhavam na casa.

[9] Nasceu em 19/10/1.883. Batizado a 04/02/1.884. Em seu registro de batismo consta “filho do finado Emigdio Martins Pereira e Maria Norberta Martins. Padrinhos Manoel Ursino de Aquino e Maria da Conceição Bicalho. Livro citado.Nasceu no mês seguinte ao do falecimento do pai.

Nossa vida não sofreu logo grande modificação, porque tínhamos tudo bem instalado e alguns escravos dedicados para o trabalho.

A fazenda produzia de tudo para o extraordinário e roupa, vendia-se algum boi e o excesso do café.

Logo que o Ramiro sobrinho concluiu as primeiras letras na escola de Carlos Catão Prates foi continuar os estudos em Diamantina, para onde também minha avó mudou-se.

Antes de minha avó mudar-se eu voltei para freqüentar a escola; poucas meninas eram adiantadas. Uma sobrinha da professora foi escolhida para as apostas de caligrafia comigo; muitas vezes a nota era “iguais”. As vezes que eu ganhava dava um bolinho[10], só para cumprir o regulamento.

[10] O “bolo” era aplicado com a palmatória, sobre a palma da mão. Era usado para aplicar castigo aos escravos e, na escola, aos estudantes.

Num sábado eu esqueci de levar pena nova — desde o começo eu sabia que ia perder; passei um dia horrível e na hora do julgamento vi o “P” na minha escrita. Leopoldina levantou a palmatória e me deu um formidável bolo; senti como se me tivesse arrebentado a mão… solucei profundamente, quase sem ar, até que chegou a hora da saída. A professora não conseguiu me acalmar. Meu irmão vinha todos os dias para me acompanhar e outros meninos vinham para levar suas irmãs. As pessoas não compreendiam, digo, não podiam compreender o motivo do meu choro e faziam conjeturas as mais diversas e eu, sufocada pelo choro, não podia falar. Minha avó banhou meu rosto com água fresca, me fez compreender que aquilo era da escola, que não era humilhante, mas meu coração não podia perdoar a Leopoldina… naquele resto de ano não voltei à escola.

Minha avó mudou-se para Diamantina.

Para meu irmão Pedro e eu continuarmos na escola fomos morar em casa de tia Maria Izabel, uma filha de Dom José e esposa de Rodrigo de Oliveira Pinto. Eles tinham os seguintes filhos: José, Naná, Adméia, Joãozinho, Quinca e Zinha. Adméia tornou-se logo minha amiga e muito me auxiliou, principalmente nos deveres escolares. Duas vezes por mês mamãe mandava José Pequeno trazer um cargueiro de cousas para nós: carne de sol, carne de porco, toicinho, doces  secos, queijos, requeijões, biscoitos, etc. Para nós era um prazer ver desarrumar as bruacas. Em casa de tia Maria o que eu mais gostava era da canjica, que Antônia, a cozinheira, preparava tão bem.

Nesse ano tive o meu diploma de curso primário e voltei para ficar com mamãe na fazenda.

Tio Orozimbo casou-se com uma neta de Carlos Sá, filha de José Thomaz de Villa Nova e veio passar uns tempos conosco[11]. Muitas vezes eu os acompanhei nos passeios, nas caçadas, nas pescarias…

[11] Registro do casamento: “Aos quinze de Agosto de mil, oitocentos e oitenta e cinco nesta cidade de Grão Mogol em casa de residencia do Capitão José Thomaz de Villa Nova, as oito horas da noite, com precisa dispensa canonica de logar, hora e precedencia de banhos e ainda mais de parentesco consanguineo de quarto grao attingentes ao terceiro assisti a celebração do sacramento de matrimonio que com palavras de expresso assentimento celebrarão os contrahentes Orosimbo José Velloso e Dona Emília Sá D’Almeida Velloso, brancos, aquelle com idade de vinte e sette annos, filho legitimo do finado Leonel João Velloso e Dona Antonia Ricarda Bicalho, natural da Freguesia de Itacambira e aquella de idade vinte e um annos, natural e domiciliada desta Freguesia, filha legítima do Capitão José Thomaz de Villa Nova e dona Emília Carlota de Sá. Logo dei-lhes as bençãos nupciais sendo presentes por testemunhas alem de outras os Majores Joaquim Dias Bicalho e Casemiro Tavares Soares. Para constar mandei faser este em que me assigno. Joaquim Dias Bicalho — Casemiro Tavares Soares — Orozimbo José Vellozo — Emília Sá de Almeida Vellozo.” Livro de Casamentos da Igreja de Santo Antônio – Grão Mogol.

Recebíamos muitas visitas: os Sá, os Colares, os Prates. O Manduquinha, quando passava para a Assembléia era nosso hóspede. Mais ou menos nesse tempo tio Ramiro foi eleito deputado. Nota: tia Maria, irmã de Dom José, casada com Francisco Martins Pereira, irmão de Caetano, deixou livres suas escravas e ainda deu-lhes terra e dinheiro, deixando os outros bens para as suas sobrinhas, tendo o marido o uso-fruto. Francisco no seu testamento deixou todos o seus bens ao afilhado Gualter  (o Barão) . Tia Donana, irmã de Dom José, deixou livres suas escravas e deixou-lhes muitos presentes. Dom Antônio, filho de Dom José, em vida, deu um escravo a cada filho e libertou as escravas. Napoleão foi o escravo que deu a tio Orozimbo; era um negro de confiança, que muitas vezes fez viagem de importância à Bahia e a Diamantina. Tio Orozimbo deu-lhe a liberdade em 1.884.

Todos os anos a festa de São João era feita em casa de tia Ná e a de São Pedro em casa de mamãe. Muitos dias antes estava tudo em movimento, faziam muito doce e muito biscoito, matavam porcos e, na véspera, leitoas, galinhas e novilha gorda. Podia-se dizer que a festa era para os escravos. Vinham escravos convidados das outras fazendas, faziam uma grande fogueira e era bonito ver toda aquela gente alegre, cantando, batucando, dizendo boas e desafios. Os instrumentos eram a viola, o pandeiro e a sanfona.

Seis léguas distante da Palmeiras passa o Rio Itacambirassu. Depois de receber o ribeirão do Grão Mogol, a um lugar onde se espraia muito, deram o nome de Vau. Pouco distante encontraram uma pedra tendo uma mancha vermelha, que é uma pomba perfeita: disseram que é a imagem do Divino. O povo começou a fazer promessas e os milagres sucediam-se. Fizeram então uma igreja, colocaram sobre o altar uma laje redonda de 80 cm , da pedra do Divino e ali o povo vai levar a  vela prometida pelos milagres recebidos.

Mamãe fez uma promessa de ir a pé em duas etapas; ela queria ir só com duas pessoas de confiança, mas nós todos queríamos ir… ficou então resolvido que ficariam as amas com os pequenos de tia Ná e de mamãe.

Saímos de madrugada. José Pequeno levava um cargueiro com as malas e as cousas de comer. Depois de andar duas léguas, perto de um riacho, paramos para descansar. A cozinheira preparou uma panelada de arroz, de linguiça frita.Estávamos por ali, apanhando cocos quando sentimos o cheiro da lingüiça, corremos todos. Depois de almoçar continuamos a caminhada. Agora íamos subir a serra. O caminho da subida era muito bem feito; foi mandado fazer pelo governo. Subia-se quase em espiral, tendo do lado do precipício um muro de pedras, bem reforçado, muito bem construído. Tia Ná nos organizou em grupos: ela ia na frente e mamãe na retaguarda. Eu seguia no grupo da frente e qual não foi minha admiração quando, numa volta do caminho, vi, lá em baixo, o outro grupo que vinha vindo, mas parecia estar voltando! … Subíamos … De um lado estava o precipício amparado pelo muro; do outro a pedreira, que sumia de vista. Olhando para baixo estava o abismo enroscado de trepadeiras e plantas próprias das pedreiras. Bem ao fundo mata fechada e lá ao longe o campo com muitas árvores floridas. Olhando para cima, quando já não se via o precipício, de uma alta pedreira saía um esguicho de água fresca e cristalina. Que beleza e que delícia!…  Ali nos reunimos todos para a merenda.

Depois de andar pouco mais de uma légua, agora descendo suavemente, chegamos a uma gruta onde paramos para descansar. Era uma grande pedra, quase redonda, solapada, como um forno, com uma grande entrada e o chão coberto de areia branca, podia-se entrar de pé e cabia muita gente. Logo adiante se via a cabeceira de um córrego e a cozinheira nos chamou para jantar. Ao escurecer chegamos à cidade; não nos esperavam, mas como já tínhamos jantado, foi só chá com biscoito e a cama.

Descansamos dois dias, para depois ir ao Vau. Mamãe convidou algumas amigas e agora, num grupo maior, facilmente fizemos as duas léguas, pois íamos correndo, brincando, apanhando jambo, que havia muito pelo caminho e com o calor nós achávamos deliciosos… Atravessamos o rio mais abaixo, numa ponte que não era larga e não tinha balaústres; o rio aí era muito fundo, a água parda e escura, a ponte balançava.

Depois de estar um pouco na igreja, que ainda não estava assoalhada, fomos almoçar e apanhar pedras na beira do rio. Que variedade de pedras! De todas as cores, de todos os formatos. Eu e meu irmão escolhemos as que serviam de giz: verdes, anis, amarelas e vermelhas, para fazer desenhos e jogos nos lajeados de nosso quintal.

À tardinha voltamos; chegamos à cidade antes do pôr-do-sol; mamãe então nos disse: — Vocês estão muito sujos para entrar na cidade; indo pela ponte vamos descer o beco do precipício e atravessamos o ribeirão um pouco acima da cachoeira do Inferno; é preciso muito cuidado para não cair… Ao chegar à beira do ribeirão, muitos tiraram os calçados e atravessaram por dentro d’água. Eu pensei que pulando de pedra em pedra atravessaria sem tirar o calçado; mas num pulo em que a pedra era mais distante e a correnteza mais forte, meu pé escapuliu e se não fosse Elfrida, que me segurou e me ajudou a sair, de certo eu iria experimentar a altura da cachoeira!…

Pouco depois mamãe disse: — Vamos à roça do pé da serra, o café está amadurecendo e eu vou determinar a colheita. Se vocês quiserem podem levar as cestas, pago 100 rs (cem réis) cada cinco litros, só o maduro. Cada um de nós pensou ganhar muitos 100 réis e no outro dia foi com grande esforço que cada um encheu um balainho de cinco litros.

Pedimos que nos deixasse ver a serra de perto. Chica e Senhorinha eram determinadas: uma conduzia um machado e a outra um facão. Mamãe mandou que elas nos acompanhassem. Levamos a cesta para apanhar cocos e catolés, que havia muito por ali. Primeiro, fomos a uma grande pedra que tinha perto um pé de congonha, do qual Senhorinha queria levar uns galhos. A pedra, pela frente, tinha muitos metros de altura, mas, contornando-a, subia-se com facilidade e de cima podia-se apanhar as folhas da congonha.

Senhorinha nos mostrou na pedra uns sinais vermelhos, dizendo que eram inscrições dos bugres.Nós ficamos assustados e ela disse que não havia mais bugres, que há muito eles tinham ido para outras zonas. Fomos contornando as pedras grandes por todos os lados – aquela pedraria solta; mandacarus, palmas-do-diabo, canelas-de-ema, banana de macaco e muitos arbustos de que não sabíamos os nomes. Paramos perto de uma gruta e elas nos preveniram para não entrar, pois podia ser morada de alguma onça. Eu estava admirada daquele amontoado de pedras tão desiguais e por ser aquela serra tão direita e tão azul que a gente via de longe; olhando para cima quão pouco havíamos subido – mas era preciso voltar, senão iríamos chegar com a noite. Na volta até a roça fomos apanhando cocos – eu gostava dos meio verdes.

Para comentar, clique aqui.